quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Mais radicalidade na Conae

Hoje foi a abertura política da II Conferência Nacional de Educação, evento que reúne quase quatro mil delegados de todos os cantos do país e que desperta enorme expectativa em todos aqueles que lutam por uma educação pública, de qualidade, laica e inclusiva.
Normalmente destacaria algo das falas governamentais ou dos movimentos sociais. Contudo, o que me mais me chamou a atenção foi um manifesto político que Denise Carrera, defensora do direito à educação, me entregou na hora da abertura.
O texto foi produzido pelo Grupo de Diálogos sobre Direitos Humanos, Diversidade, Inclusão e Sustentabilidade que se batizou com o nome sugestivo de “Tranças das Diversidades na Educação”.
O texto inicia com uma frase que me tocou muito pela capacidade de expressar um sentimento que compartilho e que suponho também outros tantos delegados e delegadas tenham o mesmo sentimento.
O manifesto pede maior radicalidade na superação das desigualdades, na promoção dos direitos humanos e inclusão, na valorização da diversidade e sustentabilidade socioambiental e no fortalecimento da participação popular em educação. Mas considero que essa maior radicalidade é uma necessidade que recai sobre todos os debates que ocorrerão na Conae até domingo.
Destaco a minha concordância com a enumeração de derrotas que tivemos na votação do PNE, mesmo que comemore e valorize muito as vitórias. O manifesto lembra que foi incluído da lei “parcerias público-privadas na contabilização dos 10% do PIB, ao mesmo tempo que mantém a limitação da gestão democrática somente à educação pública, não envolvendo as instituições privadas”, que não foi incorporada a defesa ativa do princípio da laicidade na educação, que ocorreu uma “total ausência da agenda ambiental nas metas e estratégias do PNE”, que houve uma “tímida incorporação de agendas de superação do racismo, homofobia/lesbofobia/transfobia, sexismo, em disputa com setores conservadores da sociedade (religiosos e outros)” e citam também as “tensões presentes na tramitação referentes às modalidades da educação do campo, educação indígena e educação quilombola”.
A minha lista seria um pouco maior, mas fico satisfeito em ver parte do movimento social pontuando os limites políticos da relação com o governo, com sua “governabilidade” e a relação disso com um parlamento que já era conservador e conseguirá ficar pior na próxima legislatura.
O documento enumera várias propostas que precisam ser defendidas e aprovadas pelos delegados e pelas delegadas da II Conae para que a radicalidade seja incorporada em suas deliberações.
É um bom começo. Quero defender que usemos o mesmo espírito deste manifesto para todo o conjunto de debates que ocorrerão na Conferência. Explico de maneira sucinta os motivos políticos:
1.      Acabamos de sair de um processo eleitoral de intensa polarização e mesmo quem tinha críticas contundentes aos limites do atual governo se mobilizou para impedir um retrocesso político no país. Na educação uma vitória de Aécio seria catastrófica;
2.      Após o pleito as articulações conservadoras continuam bastante intensas, vide as manifestações favoráveis ao impeachment de Dilma e a evocação de quebra do estado democrático de direito que temos presenciado;
3.      As denúncias de corrupção na Petrobrás, as quais desnudam o quanto o sistema político brasileiro está apodrecido e o quanto o financiamento privado de campanha distorce a democracia brasileira, deixam cada vez mais acuado um segundo mandato de ainda nem começou;
4.      As sinalizações do governo têm sido muito contraditórias. Um caminho (provável) é que para furar o cerco midiático e político a presidenta Dilma esqueça dos setores que lhe garantiram a vitória e faça mais e mais concessões ao grande capital, ao controle da mídia por pequenos grupos. Para isso deve antecipar a indicação de um ministro da Fazenda que seja palatável ao grande capital e anunciar austeridade nas contas (forma doce de dizer que irá diminuir os investimentos sociais no próximo mandato);
5.      O outro caminho (pouco provável) seria o da radicalidade pedida pelas entidades signatárias do manifesto que hoje comento. E a II CONAE é um bom momento para exercitar este caminho. Ao invés de austeridade fiscal para manter cinco mil famílias credoras de nossa dívida pública e os donos da grande mídia contente, que tal deixar claro os compromissos do governo com as metas do novo PNE? Em resposta aos que disseram que a vitória de Dilma foi pela ignorância dos nortistas e nordestinos, que tal acelerar a implantação do Custo Aluno Qualidade e garantir que a inclusão educacional deixe de ser segregada social e territorialmente como é hoje?
Cabe a todos nós delegados assumir nossas responsabilidades e levantar a bandeira da saudável e necessária radicalidade na II CONAE.


Nenhum comentário: